Bancos alertam sobre risco de dominância fiscal no País


Em debate sobre gestão de riscos, executivos defenderam a retomada da agenda de reformas prometida pelo governo (Por Aline Bronzati e André Ítalo Rocha, O Estadão)

Sem cumprir o dever de casa antes da crise, o Brasil está em condições piores do que outras economias e o fato de o simples debate quanto ao risco de dominância fiscal assombrá-lo é "muito importante". O País não pode descansar e precisa tocar a agenda de reformas prometida pelo governo Bolsonaro e sua equipe econômica. O alerta foi feito por executivos de bancos brasileiros, durante evento virtual da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), cujo principal objetivo foi debater a gestão de riscos.

Numa situação de dominância fiscal, as ferramentas que o Banco Central tem para controlar o avanço dos preços, entre elas a Selic (a taxa básica de juros), perdem potência e seu uso pode até mesmo provocar o efeito inverso de impulsionar a inflação, dado o impacto que teriam no aumento do custo do endividamento da União.

Tradicional na agenda da entidade, o encontro foi realizado online e ocorre cerca de 20 dias após faíscas no relacionamento entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e os bancos. Crítico da concentração bancária no País, Guedes atacou a Febraban após críticas sobre a possível criação de um novo imposto sobre transações financeiras, nos moldes da antiga CPMF.

O coro dos bancos quanto à urgência fiscal no Brasil foi unânime. "Temos uma janela importante no médio prazo com a recuperação gradual (da economia). Não podemos descansar. Precisamos continuar fazendo reformas", disse o diretor financeiro do BTG Pactual, João Marcello Dantas.

"Faço coro na questão fiscal", emendou o diretor executivo de finanças do Itaú Unibanco, Alexsandro Broedel. "Já temos o debate posto. Se a gente corre de fato o risco de dominância fiscal ou não, sem querer concluir que temos esse risco próximo ou não, é algo que, só de se considerar, já é muito importante."

O risco da dominância fiscal, tido como o pior cenário para os economistas, foi antecipado nesta quarta-feira, 18, em reportagem do Estadão/Broadcast. O tema assombra o País em meio à possibilidade de uma segunda onda da covid-19, que já atinge a Europa e os Estados Unidos.

Também pesam o aumento da dívida após o forte esforço fiscal durante a pandemia, os juros básicos em seu nível mais baixo, a despeito de um repique na inflação, e a desconfiança crescente em torno do Brasil - com o governo Bolsonaro à beira de um "populismo fiscal".

Se o País partir para um cenário de dominância fiscal, conforme Broedel, ficará entre o "ruim e o péssimo": "Ou aumento o juro e piora a situação da dívida ou mantém baixo e volta a ter o risco de inflação". Para ele, o fiscal é a grande questão de 2021. "É uma questão complexa, que não tem uma resposta simples e exige coordenação grande entre vários fatores", afirmou.

O CEO do Banco da XP, José Berenguer, espera mais objetividade na agenda de reformas daqui para frente, passadas as eleições municipais. "Na virada deste e no próximo ano, espero um pouco mais de objetividade por parte do Congresso e de políticos em medidas necessárias para termos algum tipo de melhora na trajetória fiscal nos próximos anos", disse, em outro painel do evento da Febraban.

O Brasil vive, segundo ele, um "cenário benigno" após o suporte fiscal feito em meio ao choque pandêmico. Tem, como pano de fundo para o ajuste fiscal, um mundo com abundância em dinheiro. "Não há onde alocar dinheiro. O investidor que vive de renda precisa buscar retornos. A procura por retorno vai fazer com que os mercados de capitais continuem bastante eficientes", afirmou. Para ele, o ruído em torno do tema ambiental no Brasil também afasta investimentos estrangeiros. "A principal questão a ser endereçada no Brasil é a fiscal e ainda a ambiental tem incomodado bastante os tomadores de decisão lá fora." (Fonte: Estadão)


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