Brasil vive escassez de mão de obra com desemprego recorde baixo
Empresas respondem com salários maiores, automação e reorganização do trabalho - foto Paulinho Costa feebpr -
Com a taxa de desemprego no menor nível da série histórica, pesquisa da FGV IBRE mostra que mais de 60% das empresas enfrentam dificuldade para contratar ou reter trabalhadores, elevam salários e benefícios, ampliam jornadas, repassam custos aos preços finais e aceleram investimentos em automação e tecnologia para manter a produção
O mercado de trabalho brasileiro encerrou 2025 com desemprego no menor patamar da série histórica, mas mais de 60% das empresas enfrentam dificuldades para contratar e reter mão de obra, com impactos diretos sobre custos, prazos e organização interna das companhias.
Uma pesquisa realizada pela FGV mostra que a dificuldade de contratação e retenção de mão de obra deixou de ser um fenômeno pontual e passou a se consolidar como característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro ao longo de 2025.
O levantamento indica que 62,3% das empresas relatam problemas para preencher vagas ou manter funcionários, percentual superior ao observado na rodada anterior. A falta de mão de obra reflete a combinação de um mercado de trabalho aquecido com uma taxa de desemprego historicamente baixa.
Esse cenário ampliou o poder de barganha dos trabalhadores e reduziu o número de pessoas efetivamente disponíveis para novas contratações, pressionando empresas de diferentes setores.
Mercado de trabalho aquecido amplia poder de barganha do trabalhador
A dificuldade observada em 2025 não surgiu repentinamente. Em 2024, o mercado de trabalho já apresentava aquecimento relevante, e a primeira rodada da pesquisa apontava percentuais próximos de 60% de empresas com problemas para contratar.
No fim de 2025, esse índice superou esse patamar, indicando agravamento do quadro. O aumento do poder de barganha do trabalhador é apontado como um dos principais fatores explicativos.
Com menos pessoas procurando emprego e maior número de oportunidades disponíveis, trabalhadores conseguem escolher onde atuar e negociar melhores condições, tanto salariais quanto de benefícios. Esse movimento afeta tanto quem já está empregado quanto quem busca uma nova colocação.
Outro fator é o nível de atividade econômica. A passagem de 2024 para 2025 foi marcada por desaceleração em alguns segmentos, o que reduziu ligeiramente a pressão em setores específicos.
Ainda assim, a combinação entre atividade aquecida e escassez de mão de obra permaneceu relevante para a maioria das empresas analisadas.
A pesquisa revela diferenças significativas entre setores. A construção civil aparece como o segmento mais afetado, com 69,1%das empresas relatando dificuldades para contratar ou reter trabalhadores.
O setor enfrenta desafios tanto na contratação de mão de obra básica quanto de profissionais qualificados, o que impacta diretamente prazos e custos das obras.
Nos setores de serviços e comércio, o percentual de empresas com dificuldades se aproxima de 65%. Esses segmentos lidam com alta rotatividade e crescente exigência dos trabalhadores por melhores salários e benefícios, além de maior flexibilidade nas condições de trabalho.
A indústria, por sua vez, apresentou leve recuo em 2025, ficando um pouco abaixo de 60%.
Essa redução na indústria está relacionada à desaceleração da atividade no setor. Ainda assim, o nível de dificuldade permanece elevado e reflete a dinâmica geral de um mercado de trabalho aquecido há mais de um ano, com efeitos persistentes sobre a gestão de pessoas.
A pesquisa também identificou mudanças no comportamento dos trabalhadores, percebidas de forma indireta pelas ações adotadas pelas empresas.
Uma das respostas mais frequentes tem sido a ampliação de benefícios e a oferta de salários mais elevados, como forma de atrair e reter profissionais em um ambiente competitivo.
Esse movimento reflete a elevação das pretensões salariais, tanto de trabalhadores já empregados quanto daqueles que estão fora do mercado.
O aumento de auxílios pagos pelo governo também é citado como elemento que contribui para tornar candidatos mais exigentes quanto à remuneração mínima aceita para um novo posto de trabalho.
Paralelamente, cresce o investimento em capacitação interna. Muitas empresas passaram a qualificar trabalhadores que já fazem parte do quadro, preparando-os para assumir funções mais complexas.
Essa estratégia busca suprir a dificuldade de encontrar profissionais prontos no mercado e, ao mesmo tempo, criar oportunidades de ascensão interna, reduzindo a rotatividade.
Aumento da carga horária e repasse de custos ganham espaço
As consequências da escassez de mão de obra tornaram-se mais evidentes em 2025. Em comparação com 2024, diminuiu o percentual de empresas que afirmam não sofrer impactos relevantes.
O principal efeito relatado é o aumento da carga horária dos trabalhadores, por meio de horas extras, ampliação de turnos ou reorganização das escalas.
Esse ajuste é observado principalmente na indústria de transformação e na construção civil, onde a falta de pessoal leva ao prolongamento da jornada para manter a produção e cumprir contratos. O resultado é maior pressão sobre os trabalhadores e riscos associados ao aumento do desgaste físico e operacional.
O segundo impacto mais citado é o repasse de custos ao preço final dos produtos e serviços. Com salários e benefícios mais elevados, as empresas absorvem parte do aumento, mas também transferem parcela desses custos aos consumidores.
Esse movimento é apontado como potencial fator de pressão inflacionária, à medida que se espalha por diferentes setores.
Em terceiro lugar aparecem os atrasos em entregas, especialmente na construção civil. A dificuldade para contratar profissionais qualificados pode postergar a execução de obras e a prestação de serviços, afetando cronogramas e relações comerciais. Esse efeito, embora citado por um percentual menor de empresas, ganhou relevância em 2025.
Automação e tecnologia avançam como resposta estrutural
Um dos movimentos que mais cresceram entre 2024 e 2025 foi a tentativa das empresas de depender menos da mão de obra direta. A pesquisa indica que a adoção de automação e tecnologias, incluindo inteligência artificial, passou a ser vista como estratégia para contornar a escassez de trabalhadores.
Empresas têm revisado processos internos para identificar etapas que podem ser automatizadas ou reorganizadas, reduzindo a necessidade de pessoal em determinadas funções. Essa mudança não elimina a demanda por trabalhadores, mas permite concentrar investimentos em profissionais mais qualificados e difíceis de encontrar.
A dificuldade de formar mão de obra qualificada em determinadas regiões pode levar anos para ser superada. Diante disso, as empresas buscam soluções que envolvem tecnologia e reestruturação interna, seja para substituir ocupações específicas, seja para economizar recursos e direcioná-los a contratações estratégicas.
Esse conjunto de medidas revela uma adaptação gradual das empresas a um mercado de trabalho estruturalmente aquecido.
A escassez de mão de obra, longe de ser um fenômeno passageiro, vem moldando decisões sobre salários, benefícios, organização do trabalho e investimentos em tecnologia, com impactos duradouros sobre a economia brasileira e o dia a dia das companhias, mesmo diante de pequenos ajstes pontuais observados ao longo do período analisado.
O estudo Sondagens Empresariais Escassez de mão de obra pode ser acessado clicando neste link. (Fonte: CPG)
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