Master era banco da 'terceira divisão', diz Galípolo


Instituição representava menos de 0,5% dos ativos do sistema financeiro, segundo presidente do BC. Ele afirma que Banco Central não pode ser arrastado para debates políticos sobre decisões técnicas (Por Fernanda Brigatti) -foto reprodução - 

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta terça-feira (18) no Senado que o Banco Master era uma espécie de instituição de terceira divisão no sistema financeiro brasileiro.

Na avaliação do chefe da autoridade monetária, o que mais tem consternado as pessoas ao analisar o caso é o que se fazia com o dinheiro depositado no banco, e menos com o passivo da instituição, que foi liquidada pelo BC em novembro do ano passado.

"Ele é um banco S3", afirmou, citando a nomenclatura usada internamente pela autarquia. "Para explicar, e espero que os outros bancos S3 não se ofendam, [era] da terceira divisão do futebol que é o sistema financeiro brasileiro".

Segundo Galípolo, o Master não oferecia risco sistêmico porque correspondia a menos de 0,5% dos ativos do sistema financeiro nacional. O caso se tornou relevante, entretanto, por conta do uso do dinheiro.

O Master chamava atenção no mercado financeiro porque oferecia a venda de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com altos retornos e apoiado na garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), fundo privado que cobre aplicações de até R$ 250 mil.

A Polícia Federal tem uma série de investigações ligadas ao Master, apurando a suspeita de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e uso de recursos públicos em operações do banco. As apurações também mostram gastos milionários com festas e despesas de autoridades da política.

No bojo das apurações, dois servidores do BC foram afastados por envolvimento no caso. Investigação interna do Banco Central concluiu que o ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana simulou dois contratos, que somaram R$ 4 milhões, com um advogado ligado ao Banco Master para receber propina.

O ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza também foi afastado. Ele é suspeito de ter manipulado informações sobre a atuação do Master quando chefiava a área de Fiscalização, na gestão de Roberto Campos Neto, para afastar suspeitas da cúpula do órgão e driblar investigações internas.

Na comissão do Senado, Galípolo disse que somente a Justiça poderá determinar o que realmente aconteceu em relação ao afastamento dos servidores, e que "todo o corpo técnico sente um efetivo luto com o que aconteceu." Os indícios, afirmou o presidente do BC, são graves.

Galípolo também pediu aos senadores o apoio à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que dá autonomia financeira ao BC e à atualização na resolução bancária, regramento que afeta, por exemplo, os Raets (Regime de Administração Especial Temporária). A legislação que trata do tema é de 1975.

"Infelizmente, o histórico é: toda vez que a gente entrou num Raet, o banco acabou sendo liquidado, a gente não conseguiu recuperar uma instituição. A sensação que nós temos é a de que temos menos instrumentos do que outras instituições."

Galípolo defendeu que o Banco Central "não é palanque" e não pode servir a pressões políticas em decisões como o veto à compra do BRB (Banco de Brasília) pelo Master, esse último depois liquidado pela autarquia. Ele respondia ao senador Renan Calheiros (MDB-AL), para quem o presidente da autarquia devia ter reagido à proposta de partidos do centrão para dar poderes ao Congresso Nacional para demitir diretores e o presidente do BC.

"Foi um fato gravíssimo e nunca vi o senhor falar disso", afirmou. "Não tivemos uma reação pública do senhor. Era pedagógico para delimitar a independência do Banco Central", disse o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. A articulação do centrão foi tornada pública no dia 2 de setembro de 2025, véspera da decisão do BC que indeferiu o pedido do BRB para comprar o Master.

"Ela foi pedagógica. No dia seguinte, o Banco Central teve coragem de rejeitar", disse Galípolo. "O Banco Central não é palanque, toma decisão correta independentemente de quem está jogando pedra e fazendo barulho."

O presidente do Banco Central defendeu que não cabe à autarquia reagir a pressões políticas. "É muito importante para a autonomia e para a credibilidade do Banco Central que ele não seja arrastado para esse tipo de debate", afirmou.

Segundo Galípolo, se a ofensiva do centrão era uma tentativa de coerção, não cabe a ele fazer a afirmação. "Quem sou eu pra dizer isso, quem sou eu para fiscalizar o Legislativo, eu sou fiscalizado."

Antes, Renan também disse que, em outra audiência na CAE, Galípolo havia afirmado que, "à primeira vista, a operação BRB-Master estava correta."

"Jamais diria isso, até porque o Banco Central não comenta substituição de particular", afirmou Galípolo. O chefe da autoridade monetária disse que apenas uma pessoa sem acesso a internet e sem TV a cabo acharia que o BC trabalhou pela venda do Master.

Autonomia financeira do BC não avança no Senado
Durante a audiência nesta terça, Galípolo defendeu mais de uma vez a aprovação de projetos como a PEC 65, que trata da autonomia financeira da autarquia. A proposta de emenda já tem relatório, mas depende de o texto entrar na pauta da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e ser aprovado.

"Meu receio é que o fato do Banco Central não negociar o seu mandato o faça ser asfixiado porque não entra no jogo político ou, quiçá, um dia possa ser presidido por alguém que tope", afirmou. Em outro momento, Galípolo defendeu que se o Senado quer "realmente ajudar a governança do Banco Central", é necessário avançar com as propostas de autonomia.

"O Banco Central da Nigéria tem, o do México tem, o da Inglaterra tem, o de Portugal tem. Todos esses bancos centrais têm recursos para competir com um sistema financeiro que tem muito recurso. Então a melhor ajuda que eu posso ter, depois da governança, é automatizar processo e botar mais gente [para trabalhar]."

Galípolo voltou a falar aos senadores nesta terça sobre o encontro de Daniel Vorcaro, dono do Master, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2024. Ele já havia respondido sobre o assunto durante audiência na CPI do Crime Organizado.

O presidente do Banco Central disse ter sido chamado para ir ao Planalto e chegou lá já com a reunião em curso. Estavam Vorcaro, seu então sócio Augusto Lima, o ex-ministro Guido Mantega, os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia) e o chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.

Segundo ele, o ex-banqueiro e seu ex-sócio Augusto Lima disseram a Lula que tinham métodos inovadores e que vinham sendo perseguidos por incomodar a concorrência. Para o presidente do Banco Central, que esteve no encontro, o argumento fazia pouco sentido, já que o Master era um banco pequeno, com menos de 0,5% dos ativos do mercado.

O portal Poder 360 publicou no fim de semana que Lula teria aconselhado o ex-dono do Master a não vender a instituição ao BTG.

O encontro de Vorcaro com Lula foi em 4 de novembro de 2024, antes de as fraudes no Banco Master serem tornadas públicas. Galípolo então era diretor de Política Monetária e assumiria, pouco mais de um mês depois, em 30 de dezembro, a presidência do BC. (Fonte: Folha de SP)

Notícias FEEB PR


COMPARTILHAR