Recorde de feminicídios no Brasil está em todo lugar, menos nos dados


Preferências políticas têm moldado percepção sobre desemprego, inflação e até violência (Por Pedro Fernando Nery) - foto divulgação - 

A taxa de homicídios de mulheres caiu quase 30% em dez anos no Brasil (40% em SP). Em cinco anos, caiu 20%. Esses números podem te surpreender, porque a impressão generalizada é de aumento do assassinato de mulheres.

São os anos anteriores a 2023, último ano com dados completos no Atlas da Violência. Na Folha, Sérgio Rodrigues opinou que “a alta do feminicídio é filha da epidemia de influenciadores misóginos e dos políticos populistas”. No Globo, a manchete: “Epidemia secular: feminicídios explodem, reflexo da estrutura violenta da sociedade”. Nas redes, um vídeo da Ana Paula Padrão.

Meu cenário otimista para o Brasil é que ficaremos menos violentos, um dos poucos pontos positivos da transição demográfica. Teremos menos trabalhadores, mas menos homens jovens significa também menos violência. Um recorde de feminicídios derruba uma das poucas teses de copo meio cheio para o Brasil. Mas olho os dados, e a narrativa não encaixa.

Por que não bate? Temos dados confiáveis e antigos para assassinatos de mulheres, em queda expressiva, mas isso é diferente de feminicídio (assassinato pela condição de ser mulher). As séries históricas de feminicídio só começam a partir de 2015, e sem padronização. Muitos estão entendendo que recorde da série histórica é o mesmo que um recorde histórico.

É improvável que entre os assassinatos de mulheres antes não houvesse muitos feminicídios, eles só não eram registrados assim. Uma pista da confusão: o número de assassinatos em ambiente doméstico já caiu em anos em que o feminicídio aumentou.

Me lembro vivamente do dia em que me contaram que nunca mais veríamos Adelaide quando eu era criança. Adelaide era uma mulher preta, doméstica de uma vizinha. Foi minha prima que me contou, estávamos debaixo do prédio e Adelaide foi morta pelo namorado com tijoladas na cabeça. Adelaide nunca apareceu nas estatísticas de feminicídio, só na de homicídios de mulheres.

Registros refletem conscientização. Na Europa, os piores países em violência de gênero são Dinamarca, Finlândia e Suécia, e o melhor é a Bulgária. No Brasil, o percentual de assassinatos de mulheres atribuído a feminicídio já variou no mesmo ano de 4% na Bahia para 60% no Piauí, estado vizinho. Uma ressalva: não temos dados ainda para 24 e 25 — pode haver reversão na tendência, ainda que o propalado recorde pareça impossível.

Qualquer que seja o número, serão Adelaides demais. Mas as redes parecem dificultar nossa percepção da realidade. É o impacto dos vídeos? A polarização? Alguns não vão acreditar nesse texto, outros não aceitam a queda do desemprego ou da inflação.

A transição demográfica é invisível, mas vai aparecendo em toda parte. (Fonte: Estadão)

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