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Idosos enfrentam taxa de erro cinco vezes maior em biometria facial e sofrem com golpes e restrições

Serviços como atendimento bancário e Previdência usam a tecnologia com viés maior contra mais velhos. Dificuldade com smartphone e aparelhos herdados de parentes pioram precisão (Por Pedro S. Teixeira) - imagem gerada por IA -

A taxa de erros de um sistema de reconhecimento facial salta de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos para até 5% entre quem tem 70 anos ou mais, segundo o Nist, órgão americano equivalente ao Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia). Ou seja, a depender do parâmetro observado, as falhas se multiplicam por cinco.

Os dados dão contexto aos relatos em redes sociais envolvendo idosos com acesso impedido a aplicativos de banco ou ao Gov.BR, além de acessos indevidos a contas de pessoas dessa faixa etária. Isso porque, além dos casos de não validação, existe o erro falso positivo, no qual o sistema reconhece outra pessoa —essa taxa de erro é a maior.

A adoção de tecnologia é compulsória em casos como a prova de vida da Previdência pelo aplicativo Meu INSS. A aposentada pernambucana Eunice Rocha de Oliveira Guimarães, 77, por exemplo, está há um mês sem conseguir acessar o sistema e tem dificuldades de mobilidade para ir a uma agência devido ao mal de Parkinson.

"A doença causa mudanças no rosto por causa dos efeitos na musculatura", diz Alécia Guimarães, a filha de Eunice. Alécia busca informações há cerca de 30 dias sobre como confirmar que a mãe está viva, mas não consegue atendimento na central 135, o canal telefônico da Previdência.

A solução, diz ela, será tirar um dia de folga para ir a uma agência física só para tirar dúvidas, considerando que a mãe está impossibilitada.

O INSS também dá a opção de fazer a prova de vida por meio da instituição bancária do beneficiário. Mas o banco também exige a validação biométrica, segundo Alécia.

Segundo a autarquia, pessoas que estão sem condições de saúde para ir pessoalmente às agências podem nomear um procurador ou agendar a visita de um servidor do INSS para fazer a comprovação de vida. Isso precisa ser feito pessoalmente, quando o acesso ao aplicativo está limitado por questões de segurança.


Os erros com pessoas mais velhas vêm de duas fontes ao mesmo tempo, segundo o arquiteto de software Camilo Girardelli. O rosto das pessoas idosas muda mais em menos tempo do que o de jovens, e os sistemas confundem mais a identidade quanto maior é a idade.

Como os sistemas biométricos são ferramentas estatísticas, sempre haverá um erro inerente, que pode ser minorado. O primeiro passo, diz Girardelli, é reconhecer o problema nas bases de dados usadas, compostas majoritariamente pelo rosto de homens brancos e jovens.

Depois, é possível fazer ajustes técnicos e adotar tecnologias mais recentes, como o aprendizado profundo em detrimento da análise de geometria e textura da pele.

A imprecisão em relação aos rostos de idosos cresce ainda mais quando há vieses já conhecidos nos sistemas de reconhecimento facial relativos a cor de pele, gênero e etnia. "Quando há interseccionalidade, os fatores de dificuldade se acumulam na mesma pessoa, e o erro não se soma, se multiplica", diz Girardelli.

Mário Serra, 63, dá aulas de cidadania digital para idosos e passou dois anos sem conseguir acessar o Gov.BR usando sua biometria do rosto. "Como eu tenho cabelo e barba brancos em uma pele negra, fica difícil identificar o que mais atrapalha", afirma ele.

Ele consegue acessar o Gov.BR recorrendo ao aplicativo bancário. "Não foi tão difícil por ser uma opção na tela inicial. Mas é necessário usar o token —o que é isso?— da conta, um degrau de dificuldade a mais", recorda.

De acordo com Serra, pesam muitos detalhes na experiência de pessoas mais velhas excluídas pela leitura facial.

Os idosos, com frequência, têm aparelhos "herdados dos filhos" com condições técnicas precárias, não estão habituados a fazer selfies ou a mudar para a câmera traseira em busca de qualidade. "Essas inovações não fazem parte do histórico de vidas das pessoas, mesmo as mais escolarizadas."

"Há a opção de pedir ajuda a terceiros. O custo disso é compartilhar a senha e aumentar a dependência de outra pessoa", acrescenta.

Para a diretora-executiva da entidade de direitos digitais Olabi Gabriela Agustini, o reconhecimento facial é só uma etapa de um "longo e penoso" processo.

"A pessoa precisa baixar aplicativo, criar senha, confirmar email ou SMS, autorizar acesso à câmera, fotografar documento, entender instruções, repetir etapas e lidar com mensagens de erro. Cada uma dessas fases pode gerar fricção."

Agustini lembra ainda do medo de golpe, do receio de errar e da ansiedade de lidar com cadastros relevantes como atividades bancárias e benefícios sociais. "O processo precisa ser simples e inspirar confiança", diz ela.

O advogado especialista em Previdência Social e colunista da Folha Rômulo Saraiva afirma que os idosos sofrem prejuízo material quando não conseguem a validação biométrica ou quando terceiros conseguem fazer isso de maneira fraudulenta.

"A dificuldade de confirmar a biometria também resulta em fraude, crimes bancários e descontos indevidos, por causa da fragilidade gerada", diz ele. "O INSS diz que a tecnologia é necessária, mas não oferece subsídio para ajudar uma geração que não está ambientada com a tecnologia."


Se, de um lado, as dificuldades de lidar com smartphones podem piorar os vieses contra idosos medidos nos laboratórios, Girardelli diz que as empresas e o serviço público podem diminuir as distorções se houver investimento.

"O sistema precisa medir a qualidade da imagem e pedir uma nova tentativa com uma orientação mais clara em vez de simplesmente falhar", diz ele. O ideal é apontar se a foto está borrada, se a iluminação está ruim ou se a pessoa mexeu.

Atualizações recorrentes do banco de imagens também diminuem o erro decorrente da mudança de aparência. Reconhecer os vieses da tecnologia também é essencial, de acordo com o arquiteto de software.

"Depois que o viés contra mulheres de pele escura foi exposto publicamente, algumas empresas retreinaram os sistemas, e a taxa de erro para esse grupo caiu de mais de 20% para uma casa de 5%", diz ele.

VEJA DICAS PARA ENFRENTAR O RECONHECIMENTO FACIAL
  • Escolha locais bem iluminados
  • Garanta conexões de internet estáveis
  • Procure deixar o celular na altura do rosto
  • Caso o reconhecimento facial falhe, tente alternativas de acesso
DICAS PARA EMPRESAS E GOVERNO
  • Ofereça canais secundários de validação e atendimento humano
  • Desenvolva interfaces com tipografia legível e instruções claras
  • Garanta prazos adequados para a execução de cada etapa
  • Forneça alertas de erro que orientem o usuário
  • Evite que falhas no sistema obriguem o usuário a reiniciar todo o preenchimento de dados do zero (Fonte: Estadão)
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